O nome do meu avô era Belizário Ferraz de Oliveira, mas era chamado como está no título, embora não fizesse parte de nenhuma instituição que usasse a denominação de coronel. Por que, então, era chamado assim? É porque era muito rico e possuía muitos e muitos e muitos hectares de terra. Tanta terra, que ao morrer, seus mais de dez filhos ficou cada um com uma fazenda razoável. Lembro de sua cabeça branca sobre a qual nunca faltava um boné, tal e qual acontece comigo agora. Também brancas estarão as cabeças das pessoas inocentes que procuram esconder a brancura da natureza pela pretura do veneno com o qual procuram inutilmente esconder a idade. Há 27 anos, quando eu era cinquentão, alguém me disse que eu ficaria dez anos mais novo se pintasse o cabelo. Este é um comportamento que ajuda o sofrimento na UTI do futuro como resultado da lenta, mas constante inoculação de veneno no corpo. A propaganda, arte de explorar a estupidez humana (frase não é minha) faz crer haver o bem onde há o mal. A notícia estampada na internete de não haver mulher feia, apenas haver mulher sem dinheiro para pagar um bom cirurgião plástico, acompanhada da sugestão para que conhecermos a mulher que mais fez cirurgias plásticas no mundo, esta da imagem,
é de uma falsidade que ultrapassa os limites do crime de propaganda enganosa considerando o resultado disso na velhice. A falsidade sugerida aos inocentes induz senhoras matronas a buscar a fonte da eterna juventude através do bisturi dos também inocentes médicos em busca de dinheiro. A hostilidade dos médicos mercenários educados no sistema capitalista contra os médicos educados no sistema socialista é exatamente porque os médicos socialistas aprenderam pelo sistema educacional do regime socialista só haver desvantagens para a sociedade nesse negócio idiota de acumular riqueza, como prova a infelicidade que campeia solta por este país de triste sorte e povo distante da realidade por pensar ser mais importante o futebola e o axé do que o futuro. O socialista não é socialista por ser um bom sujeito. Ele é socialista por ter aprendido que uma sociedade não dá certo se apenas alguns desfrutam do bem-estar conseguido com o produto do trabalho de todos.
A falta de prática em escrever que faz perder o rumo me desviou do assunto dos bruxos do bisturi que levam as pessoas a trilhar no sentido inverso a estrada do tempo e transformam as mulheres em verdadeiros monstros quando finalmente ocorrer a vitória final e implacável da invencível natureza.
Antes
disso, entretanto, eu falava do meu avô. Ele pegava no fundo de um grande baú
um dinheiro que me dava, cujas cédulas
nunca haviam sido dobradas anteriormente. Apesar de ser rico, meu avô
nunca roubou ninguém. As riquezas atuais são feitas através de falcatruas e
canalhices de todo tipo com os politiqueiros, como prova o relacionamento
promíscuo do governo de Lula e Eike Batista, do qual resultou imensa fortuna
para a família do canceroso pau-de-arara e outra para o malabarista escroque da
petrolífera OGX. A riqueza de vovô, ao contrário, era proveniente do trabalho
nas terras que não foram usurpadas, roubadas, ao estilo do romance São Bernardo
de Graciliano Ramos. Foram adquiridas porque meu avô era muito macho e penetrou
mata adentro no tempo em que onça havia de montão, e mediu terras até então de
propriedade do Estado, mas que nada rendiam prá ninguém. Depois de trabalhar
estas terras elas renderam impostos e carne para alimentação de muita gente.
Meu avô não
era desses coronéis que o governo americano contratou para defender seus
interesses nefastos como aqueles que usavam imensos óculos escuros para
esconder sua sordidez e maldade refletidas em seus olhos de mostro que
entorpecia jovens idealistas e os empurravam de helicópteros ao mar para serem
comidos por peixes. Os grandes óculos escuros escondiam a maldade porque eles
refletem o ânimo de bondade ou de ruindade. É por isso que as poucas pessoas
inteligentes que existem afirmam serem os olhos o espelho da alma.
Meu avô,
não! Seus óculos eram brancos e refletiam bondade. Inteligente que era, lia muito
e entendia de medicina. Examinava pessoas pobres doentes com um estetoscópio
que nunca dependurava no pescoço como fazem os médicos ajuntadores de dinheiro
para pavonear-se pelo fato de ser médico vestido de branco pelas ruas. Certa
vez em conversa de boteco com um médico tão inocente quanto a manada, eu dizia
que o livre arbítrio só dá aos pobres a opção de ser trabalhador ou ladrão.
Como todo inocente, respondeu que não. Que o pobre podia também ser um médico,
como se o médico não fosse também um trabalhador. A maioria deles trabalha para
ajudar os donos dos planos de saúde a juntar riqueza. Os que não se incluem na
categoria de escravo dos planos de saúde escravizam-se a si mesmos permanecendo
o dia, a semana, o mês e o ano afundado em ambientes doentios onde o ar não é
natural, com a obrigação de examinar doentes e juntar dinheiro.
Mas, cadê a
prosa sobre meu saudoso avô? Ele me examinou quando eu era menino e sofria de
asma, entregando a minha mãe uma solução que recomendou tomar apenas uma colher
de sopa por dia. Não posso garantir que foi isso ou a idade. O certo é que
decorrido algum tempo a asma sumiu e até hoje quando já estou velho a maldita
não mais deu a cara. Como nunca consegui enfrentar esta vida sem sentido de
cara limpa, a bebida alcoólica me ajudava a vê-la um pouco melhor. Porém, como
toda droga danifica o organismo, passei a me sentir muito mal quando bebia.
Assim, quando a bebida passou a me causar grande mal-estar, deixei-a de lado passei
a fumar maconha. A princípio, era total maravilha porque não dava ressaca e me
apaziguava minha alma nos momentos inexplicavelmente desagradáveis. Como não se
pode usar drogas impunemente, alguns anos depois me apareceu uma tosse e um
leve ronco ao respirar que lembrava a antiga asma. Procurei o médico de pulmão (cuja
especialidade, devido à origem da palavra pulmão, tem o nome parecido com a
profissão de quem trabalha com pneus) e fiquei surpreso ao ouvir do doutor que
meus pulmões eram mais possantes do que os dele que eram cerca de trinta anos
mais jovens do que os meus. Também me disse que a irritação provinha da fumaça
dos cigarros, mas continuei fumando. Mas, como a droga tem alto preço de saúde,
me apareceu um irritante pigarro que o médico de garganta me disse provir mais
da queima do papel do que da erva. Pensando poder burlar, passei a fumar em
cachimbo. Tinha quatro deles e os mantinha rigorosamente limpos com acetona
porque o mel preto proveniente da queima da erva era tão grudento que não soltava
facilmente. É fácil imaginar o estrago daquela cola grudunhada nos pulmões dos jovens.
Estes não devem se meter com drogas porque ainda tem muito tempo pela frente e
devem evitá-las porque elas os levarão a uma velhice infeliz. Procurei mostrar
isso aos jovens num arremedo de livro chamado A Inferioridade do Brasileiro, dizendo-lhes
ser burrice o jovem fumar maconha ou usar qualquer tipo de droga. Quis mostrar
a eles que a maconha ajuda o velho nas tristezas, coisa que não acontece com o
jovem porque sua ingenuidade o faz viver uma eterna festa. Além disso, também
quis mostrar-lhes o perigo de se buscar sensações mais fortes e perder o
controle sobre sua vida, coisa que não acontece com o velho. Depois de fumar
maconha por dezesseis anos e ter tido como recompensa além dos incômodos
citados, também ganhei uma bronca no estômago. Convencido de não valer a pena,
simplesmente abandonei completamente o hábito. Nenhum jovem jamais conseguirá
fazer isto.
Novamente a
tergiversação me desvia da lembrança do meu avô. Certa vez, ao ouvir um elogio
rasgado de um deputado que viajara trinta quilômetros a cavalo, a partir da
cidade de Itambé até a fazenda, meu avô apontou para um trabalhador que
consertava os arreios estragados e lhe disse: “O senhor estaria dizendo isso
para aquele trabalhador se ele fosse dono das minhas vacas”. Assim era o
temperamento sincero do meu avô.
Morreu de
uma estranha queda durante a madrugada. Para a manada, uma perda irreparável e
que descanse em paz, como se algo pudesse conturbar o sono eterno que
proporciona a grande vantagem de sair do meio de nunca mais ouvir falar em
Lula, Dilma, Sarney, Calheiros, etc., etc.
Inté outra
prosa.

