E aqui estamos
mais uma vez, como um dom Quixote, na monumental e hercúlea missão de tentar em
vão fazer com que um mínimo sequer da juventude perceba o quanto erra em se
deixar levar pela mesma tradição que nos colocou no mau caminho da submissão
medrosa de procurar rumos diferentes e ares novos que permitam a todos respirar
sem o ranço da tradicionalidade, portanto, um tipo de vida digna de seres
corajosos o bastante para enfrentar a mentira de castigo no inferno, medo esse
que se não for enfrentado resolutamente como falso que é não deixará que a luz
da verdade supere as trevas da falsidade e das mentiras que enredam as
infelizes criaturas humanas desde que delas se tem notícia. O professor Noah
Harari mostra no livro SAPIENS que nossos ancestrais caçadores-coletores se a
princípio tinham de encontrar comida ou morrer de fome, quando passaram a
produzi-la, esta inovação se fez acompanhar de medo das intempéries ou depois
de ter a duras penas implantado uma propriedade, perdê-la para a violência de alguém
mais forte e de maior da mesma brutalidade que nunca afastou dos seres humanos.
Depois de termos entrado para o que risivelmente se chama de civilização,
exacerbou a violência, a desunião, a roubalheira, as doenças, a maldade e a
maior das infelicidades que atormentam a humanidade pela insensatez de permitir
tamanha distância entre ricos e pobres cujo desespero os leva a agir
desesperadamente. Assim é que em tempo algum a humanidade desfrutou de um só
momento de verdadeira felicidade, salvo momentos de falsa alegria que logo dará
lugar a algum tipo de aborrecimento ou tristeza.
Então, se
desde o princípio de tudo, o deus do qual os infelizes humanos esperam paz,
apesar de bajulado de várias formas, nunca lhes deu. Assim, o que será que faz estes
seres impropriamente chamados de racionais continuar pensando que agora seu
deus vai lhes dar o que nunca deu?
A propósito
da necessidade de se combater a maléfica ignorância que a religiosidade fomenta,
o filósofo Robert Green Ingersoll diz que os padres não ousam enfrentar esta
luta porque perderiam seus empregos do púlpito; os professores não ousariam
porque também perderiam seus empregos; os políticos não ousariam, porque seriam
derrotados; os editores não ousariam porque perderiam seus leitores; os
comerciantes se o fizessem perderiam os clientes; os homens de prestígio não
ousariam, temendo perder os admiradores; também não se aventurariam nesta
tarefa os balconistas porque perderiam seus empregos. Assim, ante tal situação,
diz o filósofo ter resolvido se empenhar ele memo nessa luta. Entretanto, muitas
das pessoas citadas pelo filósofo como omissas da luta contra a ignorância têm
por interesse maior justamente manter as pessoas no nível mental de lavadores
de escadas de igreja porque vivendo tais pessoas de parasitar, quanto menos
espertas forem os hospedeiros, mais fácil o parasitismo.
No que diz
respeito à alegação do filósofo Ingersoll quanto à falta de pessoas
interessadas em combater a ignorância religiosa, ele não está sozinho nessa
luta, não senhor, porque o também filósofo Sam Harris, americano, no seu livro
Carta a Uma Nação Cristã, manifesta sua preocupação com o futuro de seu país de
população de maioria religiosa e, portanto, inocente o bastante para ser incapaz
de escolher bem suas autoridades, preocupação coerente com o Onze de Setembro e o fato de ter aquele povo
religioso colocado no comando de seu país um ridículo Alexandre moderno, grande
apenas na pequenez da capacidade de liderança e na insensibilidade mostrada na sede
de conquista ao custo dos olhos da cara
dos pagadores de impostos, sofredores da mesma cegueira mental de seu
Alexandre, o Pequeno, por não perceber que suas conquistas têm o poder de
catalisar para sobre seus povo não só novos ONZE
DE SETEMBRO, mas também novas rajadas de metralhadora, novos carros
arremessados sobre multidão, e sabe-se lá o que mais.
Pior de
tudo é ter sido a massa infeliz apesar de alegre, que na verdade é quem tem o
poder de promover mudança positiva na sociedade, de modo a torná-la digna de
outra geração diferente da atual geração inútil para outra coisa que não seja
futucar telefone e adorar aculturados escoiceadores de bola e cantadores de
chapéu. Até o presente momento todo o poder do povo tem sido anulado pelo pão e circo que não lhe permite
ler nas entrelinhas para perceber onde se encontra a realidade da vida e do mal
representado pela crença de esperar na bandeja o que só se obtêm por meio de fé
em si mesmo, uso da inteligência e sentimento de irmandade.
Na página
46 do livro 1808, Laurentino Gomes cita mais um fato histórico revelador de ser
a religiosidade sério fator de atraso: tendo ocorrido em Portugal no ano de
1755, NO DIA DE TODOS OS SANTOS, um terrível terremoto seguindo de incêndios e furacões
furiosos, além de enchentes que destruíram Lisboa completamente, matando entre
quinze e vinte mil pessoas. Incumbido pelo rei, o Marquês de Pombal, com
denodo, muito esforço e trabalho restaurou a cidade e a tornou muito melhor do
que era. Morto o rei, assumiu o poder sua filha D. Maria I, a maior beata
resultante da educação jesuíta, diz Laurentino. Havia santos por todo canto,
orações e velas acesas, a recompensa do nada religioso Pombal foi ser expulso
da corte, tendo de se manter a cento e dez quilômetros distante de onde
estivesse a santarrona que teve a loucura como recompensa de sua santidade. Assim,
então, ou a humanidade foge de sua beatice ou acabará vítima da loucura de
pensar que tempo é dinheiro.
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