quarta-feira, 21 de outubro de 2026

ARENGA 902

 

E aqui estamos mais uma vez, como um dom Quixote, na monumental e hercúlea missão de tentar em vão fazer com que um mínimo sequer da juventude perceba o quanto erra em se deixar levar pela mesma tradição que nos colocou no mau caminho da submissão medrosa de procurar rumos diferentes e ares novos que permitam a todos respirar sem o ranço da tradicionalidade, portanto, um tipo de vida digna de seres corajosos o bastante para enfrentar a mentira de castigo no inferno, medo esse que se não for enfrentado resolutamente como falso que é não deixará que a luz da verdade supere as trevas da falsidade e das mentiras que enredam as infelizes criaturas humanas desde que delas se tem notícia. O professor Noah Harari mostra no livro SAPIENS que nossos ancestrais caçadores-coletores se a princípio tinham de encontrar comida ou morrer de fome, quando passaram a produzi-la, esta inovação se fez acompanhar de medo das intempéries ou depois de ter a duras penas implantado uma propriedade, perdê-la para a violência de alguém mais forte e de maior da mesma brutalidade que nunca afastou dos seres humanos. Depois de termos entrado para o que risivelmente se chama de civilização, exacerbou a violência, a desunião, a roubalheira, as doenças, a maldade e a maior das infelicidades que atormentam a humanidade pela insensatez de permitir tamanha distância entre ricos e pobres cujo desespero os leva a agir desesperadamente. Assim é que em tempo algum a humanidade desfrutou de um só momento de verdadeira felicidade, salvo momentos de falsa alegria que logo dará lugar a algum tipo de aborrecimento ou tristeza.

Então, se desde o princípio de tudo, o deus do qual os infelizes humanos esperam paz, apesar de bajulado de várias formas, nunca lhes deu. Assim, o que será que faz estes seres impropriamente chamados de racionais continuar pensando que agora seu deus vai lhes dar o que nunca deu?

A propósito da necessidade de se combater a maléfica ignorância que a religiosidade fomenta, o filósofo Robert Green Ingersoll diz que os padres não ousam enfrentar esta luta porque perderiam seus empregos do púlpito; os professores não ousariam porque também perderiam seus empregos; os políticos não ousariam, porque seriam derrotados; os editores não ousariam porque perderiam seus leitores; os comerciantes se o fizessem perderiam os clientes; os homens de prestígio não ousariam, temendo perder os admiradores; também não se aventurariam nesta tarefa os balconistas porque perderiam seus empregos. Assim, ante tal situação, diz o filósofo ter resolvido se empenhar ele memo nessa luta. Entretanto, muitas das pessoas citadas pelo filósofo como omissas da luta contra a ignorância têm por interesse maior justamente manter as pessoas no nível mental de lavadores de escadas de igreja porque vivendo tais pessoas de parasitar, quanto menos espertas forem os hospedeiros, mais fácil o parasitismo.

No que diz respeito à alegação do filósofo Ingersoll quanto à falta de pessoas interessadas em combater a ignorância religiosa, ele não está sozinho nessa luta, não senhor, porque o também filósofo Sam Harris, americano, no seu livro Carta a Uma Nação Cristã, manifesta sua preocupação com o futuro de seu país de população de maioria religiosa e, portanto, inocente o bastante para ser incapaz de escolher bem suas autoridades, preocupação coerente com  o Onze de Setembro e o fato de ter aquele povo religioso colocado no comando de seu país um ridículo Alexandre moderno, grande apenas na pequenez da capacidade de liderança e na insensibilidade mostrada na sede de conquista ao custo  dos olhos da cara dos pagadores de impostos, sofredores da mesma cegueira mental de seu Alexandre, o Pequeno, por não perceber que suas conquistas têm o poder de catalisar para sobre seus povo não só novos ONZE DE SETEMBRO, mas também novas rajadas de metralhadora, novos carros arremessados sobre multidão, e sabe-se lá o que mais.

Pior de tudo é ter sido a massa infeliz apesar de alegre, que na verdade é quem tem o poder de promover mudança positiva na sociedade, de modo a torná-la digna de outra geração diferente da atual geração inútil para outra coisa que não seja futucar telefone e adorar aculturados escoiceadores de bola e cantadores de chapéu. Até o presente momento todo o poder do povo tem sido  anulado pelo pão e circo que não lhe permite ler nas entrelinhas para perceber onde se encontra a realidade da vida e do mal representado pela crença de esperar na bandeja o que só se obtêm por meio de fé em si mesmo, uso da inteligência e sentimento de irmandade.

Na página 46 do livro 1808, Laurentino Gomes cita mais um fato histórico revelador de ser a religiosidade sério fator de atraso: tendo ocorrido em Portugal no ano de 1755, NO DIA DE TODOS OS SANTOS, um terrível terremoto seguindo de incêndios e furacões furiosos, além de enchentes que destruíram Lisboa completamente, matando entre quinze e vinte mil pessoas. Incumbido pelo rei, o Marquês de Pombal, com denodo, muito esforço e trabalho restaurou a cidade e a tornou muito melhor do que era. Morto o rei, assumiu o poder sua filha D. Maria I, a maior beata resultante da educação jesuíta, diz Laurentino. Havia santos por todo canto, orações e velas acesas, a recompensa do nada religioso Pombal foi ser expulso da corte, tendo de se manter a cento e dez quilômetros distante de onde estivesse a santarrona que teve a loucura como recompensa de sua santidade. Assim, então, ou a humanidade foge de sua beatice ou acabará vítima da loucura de pensar que tempo é dinheiro.      

 

    

  

 

      

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